Pode o chocolate ser agridoce?

O cacau é a matéria-prima presente no chocolate, essa deliciosa gulodice que faz crescer água na boca e que é apreciada em todo o mundo.

Só em 2018, foram produzidas mais de 3 milhões de toneladas de cacau, por forma a dar resposta à procura global – que continua a aumentar. Países muito populosos como a Índia, por exemplo, viram o mercado de chocolate aumentar 50% entre 2011 e 2016 e esperam ainda um aumento de 30% até 2020.

No entanto, por trás da doçura do chocolate poderá existir um travo amargo que não fica no palato. Sabia que cerca de 90% da produção do cacau mais puro está a cargo de pequenos agricultores que têm dificuldades em produzi-lo por causa das alterações climáticas ou da falta de lucro? Mergulhemos no cacau.

Desmistificando os grãos de cacau

Com mais de 2.000 variedades, o cacaueiro, planta da qual provém o cacau, precisa de 10 anos para crescer e desenvolver um fruto com os sabores certos. Além disso, a produção de cacau requer condições climatéricas muito específicas para que as plantações se desenvolvam com sucesso. Os ambientes ideais para as plantações de cacau são tropicais e húmidos, perto da linha do Equador, onde as chuvas são intensas e frequentes.

A Costa do Marfim é um dos maiores produtores, com mais de 33% da produção de cacau a nível global – o resultado de 2,8 milhões de hectares de terra dedicados apenas à produção de cacau e do trabalho árduo de mais de 600 mil pequenos agricultores.

Removendo os grãos das vagens de cacau

Porém, a produção de cacau enfrenta cada vez mais desafios, à medida que consequências das alterações climáticas, como o aumento da temperatura e a escassez de chuvas, se tornam mais visíveis. As previsões indicam que as temperaturas máximas e mínimas nas regiões de cacau do Gana e da Costa do Marfim aumentarão progressivamente até 2050 em cerca de 2ºC – o que significa que a faixa de terra privilegiada onde se dá a produção de cacau estará, em breve, em risco.

Pressão sobre os agricultores de cacau

Ao mesmo tempo, a pressão associada à procura crescente está a levar agricultores e produtores a recorrer à desflorestação, de forma a poderem produzir cacau mais intensamente, mas correndo o risco de  destruir habitats e contaminar os solos e cursos de água.

Técnicas de gestão inteligente do clima podem ajudar a minimizar os impactos na produção de cacau. Organizações sem fins lucrativos, como a Rainforest Alliance e a UTZ, tentam mostrar que é possível aplicar programas sustentáveis junto de pequenos agricultores e produtores.

Para preservar os escassos recursos naturais e aumentar a produtividade do cacau, estas organizações incentivam os agricultores a recorrerem a plantas que ajudem a proteger os solos da precipitação forte, a usarem pesticidas naturais que não poluam os terrenos e os cursos de água, e a usar sistemas de poupança de água.

Outra missão destas ONGs é assegurar condições de vida e de trabalho justas. As quintas e plantações certificadas são regularmente inspecionadas de acordo com rigorosos critérios ambientais, sociais e económicos, que visam proteger a biodiversidade e fomentar uma cultura de respeito para com os trabalhadores e as comunidades locais.

O Pingo Doce, em Portugal, e a Biedronka, na Polónia, contam com mais de 80 produtos de Marca Própria que contêm cacau com certificação UTZ ou Fairtrade como matéria-prima.