A desflorestação promove o aparecimento de pandemias

Talvez a relação entre desflorestação e uma pandemia pareça uma coisa estranha, sem que haja uma associação imediata. Infelizmente, são fenómenos que estão absolutamente ligados, e de uma forma complexa.

A desflorestação descontrolada pode ser uma porta aberta a novas pandemias, cada vez mais adaptáveis ao meio envolvente.

Mas de onde é que surge esta relação entre a desflorestação e o aparecimento de novas doenças infecciosas, epidemias e até pandemias?

A desflorestação e a destruição de habitats

A desflorestação é uma das principais causas – talvez até a principal – da destruição de habitats que prestam serviços essenciais a muitos seres vivos, entre os quais o Homem, como a retenção de carbono e a produção de oxigénio. A ameaça de extinção de várias espécies animais e de plantas é evidente. E quais são as causas da desflorestação? As principais explicações são a actividade agrícola e pecuária, a extração de minérios, a expansão de zonas habitacionais, a construção de vias de comunicação ou a exploração de recursos naturais de forma desregrada.

Uma outra consequência da diminuição das áreas florestais é que muitos animais vêm-se privados dos seus habitats e acabam por ter de viver mais próximos dos humanos, o que potencia o contacto directo entre espécies. E alguns animais, principalmente selvagens, podem ser portadores de vírus e bactérias letais para outras espécies – nomeadamente o ser humano.

Deforestation Rain Forest - Monkey searching for food in trash can

Macaco à procura de comida no lixo

Pandemias: uma história que se repete

Olhando apenas para os últimos 40 anos, nota-se que houve um aumento acelerado de zoonoses que rapidamente se tornaram epidémicas.

Zoonoses:

Doenças infecciosas que são transmitidas de animais para seres humanos e que podem ser causadas por vírus, bactérias, parasitas e fungos.

A lista com exemplos de zoonoses é vasta: a raiva, a dengue, a malária (também conhecida por paludismo), brucelose, toxoplasmose ou a doença do vírus ébola.
A pandemia de Covid-19, doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2, também teve origem em animais. O consenso científico aponta para que o novo coronavírus tenha passado para o ser humano através do consumo da carne de animais portadores do mais recente coronavírus, da transmissão da doença de uns animais a outros que servem igualmente de alimento às pessoas ou que seja até uma mutação dos anteriores coronavirus.

A desflorestação é apenas uma das portas de entrada

A desflorestação tem uma responsabilidade na proliferação de zoonoses, mas não é o único factor. A falta de higiene e de segurança alimentar, nomeadamente em mercados regionais mais frequentemente associados a países em desenvolvimento, são igualmente responsáveis pela transmissão de doenças.

Mesmo os países mais ricos não conseguem evitar algumas doenças. Recorde-se a epidemia de encefalopatia espongiforme bovina (referida pela sigla BSE), mais conhecida por doença das vacas loucas, que assolou o Reino Unido nos anos 80 e 90 do século XX e se espalhou depois por vários países.

A doença terá começado pela ingestão por parte de bovinos de farinhas contaminadas. A exportação de animais vivos infectados a partir do Reino Unido disseminou a doença, que acabou por se transmitir aos humanos através do consumo de carne, manifestando-se através de uma variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (uma doença cerebral degenerativa). Dez anos depois do surto, e com as regras a serem cada vez mais apertadas, foi possível controlar a doença em animais assim como as suas repercussões em humanos.

Desflorestação: cada um tem um papel para desempenhar

É obvio que o papel de governos e autoridades é importantíssimo no controlo e prevenção de doenças – e foram as regras mais exigentes e o controlo mais apertado que permitiram controlar a doença das vacas loucas.

Travar a desflorestação já não é tão “fácil” de conseguir, mas cada um, de forma individual, pode fazer a sua parte. Por exemplo, apoiar instituições e organizações que combatem a desflorestação, procurando produtos e alimentos com certificações que asseguram origem e produção sustentáveis. Aquilo que está a ser feito na promoção e defesa do óleo de palma sustentável é uma boa forma de colocar esta estratégia em prática.