Quem conta um conto, acrescenta um pote (de mel, claro)

Em 1926, o escritor e dramaturgo inglês Alan Alexander Milne publicou um livro com um dos personangens mais emblemáticos dos contos infantis: Winnie the Pooh – o Ursinho Pooh, em português.

Entre as várias personagens criadas pela imaginação de A. A. Milner, uma ganhou estatuto de estrela planetária e tornou-se o fiel companheiro de todas as aventuras de Christopher Robin (nome do filho de Milner, que tinha um urso de peluche – a fonte da inspiração para o personagem literário). Pooh é um urso apaixonado por mel que acompanha a infância de milhões de crianças em todo o mundo há quase um século.

Que os ursos são fãs do néctar produzido pelas abelhas já todos sabemos. Agora, que podem também ser autênticos críticos gastronómicos, verdadeiros connoisseurs de mel e das suas variedades, já pode ser mais surpreendente.

Colmeias sem mel e destruídas.

Na cidade de Trabzon, na Turquia, o apicultor e engenheiro agrónomo Ibrahim Sedef deparou-se com um problema, que acabou por se tornar diário: o seu mel era roubado todas as noites por um grupo de ursos. Apesar de ter construído jaulas para as colmeias, instalado barras de metal e colocado outros tipos de mel, pão e frutas à disposição dos ursos, estes não desistiam.

Manhã após manhã, Sedef encontrava as suas colmeias sem mel e destruídas.

A situação manteve-se durante cerca de três anos, e o apicultor estima ter perdido cerca de 10 mil dólares devido aos “roubos”. Até que, valendo-se do ditado “se não podes vencê-los, junta-te a eles”, Ibrahim Sedef decidiu usar a gulodice dos peludos ladrões a seu favor para testar a qualidade do mel.

“Se não podes vencê-los…”

Perante a persistência dos “ladrões”, Ibrahim Sedef decidiu fazer uma prova de mel com os seus maiores fãs. Preparou uma mesa com quatro variedades de mel – Kestane Bali, Visne, Cicek Bali e Anzer Bali (uma variedade premium). Depois, montou câmaras noturnas, e esperou pelos visitantes habituais.

Os ursos voltaram nessa mesma noite e, antes de se dirigirem às colmeias, pararam na “mesa de prova”. Quase sem hesitar, um dos ursos ignorou completamente três dos pratos e escolheu o mel Anzer Bali – sim, o mel premium! Mas não pense que este ladrão guloso ficou satisfeito. É possível ver no vídeo o mesmo urso a tentar assaltar novamente as colmeias de Ibrahim Sedef – que, escondido, afugentou o ladrão.

Mais tarde, o apicultor confessou que apesar de todos os danos causados pelos repetidos assaltos, ele percebia o porquê e não estava zangado. Disse, inclusivamente, que adorava os seus provadores de mel. Claramente, são ursos com muito bom gosto, já que cada quilo do mel premium custa cerca de 300 dólares.

A importância da biodiversidade

Em Maio de 2019, uma outra história com ursos e mel invadiu as notícias portuguesas. Desta feita um urso-pardo – uma espécie há muito extinta em Portugal – roubou cerca de 50 kg de mel de um apiário em Bragança, na fronteira norte entre Portugal e Espanha.

Urso-pardo

Urso-pardo, espécie extinta em Portugal.

Tal como Ibrahim Sedef, o apicultor português a quem o mel foi roubado não ficou “zangado” com o seu ladrão mas, neste caso, por uma razão diferente: o último urso-pardo a habitar em Portugal foi abatido em 1843. Desde então, a espécie nunca mais tinha sido detectada. Há, no entanto, uma população de ursos-pardos na cordilheira Cantábrica, no norte de Espanha, e o urso que apareceu em Portugal, guloso ao melhor estilo Winnie the Pooh, pertence a essa população.