Do passado para o futuro

Os mais novos talvez se lembrem de os pais irem ao carpinteiro para restaurar aquele aparador antiquíssimo deixado pelos avós ou recuperar um cadeirão cheio de memórias da infância.

Mesmo que não se lembrem e estejam confortáveis com os hábitos de consumo mais modernos, certamente já terão ouvido falar da arte e da técnica necessárias para restaurar até ao mais ínfimo detalhe um móvel esculpido à mão, uma caixa de pinho e cedro ou uma delicada peça de madeira desgastada com o passar dos anos.

Este é apenas um dos múltiplos significados que a palavra “restaurar” pode ter, mas está longe de ser o único.

Restaurar significa concertar, arranjar, repor em bom estado, dar uma nova vida, recuperar o que, por acção do homem e do tempo, se perdeu ou estragou.

E é por isso que quando falamos do Dia Mundial do Ambiente, assinalado a 5 de Junho, falamos da importância de restaurar os ecossistemas, de prevenir e travar a sua degradação. E para isso não é preciso ser um artesão ou um carpinteiro: basta ser-se curioso, informado e estar preparado para fazer a diferença. Vamos a factos.

Proteger os ecossistemas – sem ser preciso esperar pelo Dia Mundial do Ambiente

O problema da destruição de ecossistemas é bastante complexo. Com a degradação (ou mesmo destruição) de ecossistemas perde-se, inevitavelmente, biodiversidade – quer em plantas quer em animais, dando-se mesmo o caso de as pessoas poderem inclusive estar mais expostas a doenças, epidemias e pandemias.

Um estudo recente da Frontiers in Forests and Global Change (uma entidade que junta cientistas de referência preocupados com o futuro das florestas e do planeta) revelou que apenas 3% de todos os ecossistemas do planeta continuam ecologicamente intactos, o que significa que os restantes 97% sofreram algum tipo de intervenção humana. Além disso, este estudo revela que grande parte dos ecossistemas intactos se encontram em reservas naturais controladas por comunidades indígenas. O Relatório Global de Avaliação da Biodiversidade e Ecossistemas 2019 da ONU deu conta de quase 1 milhão de espécies sob ameaça de extinção, o que significa que já não é suficiente conservar os ecossistemas do nosso planeta, é mesmo necessário restaurá-los.

O Dia Mundial do Ambiente comemora-se a 5 de Junho, porque foi esse o dia em que se iniciou a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, que decorreu em Estocolomo em 1972. A primeira celebração oficial do dia aconteceu em 1974 e o mote era “Apenas uma Terra”. Quase cinco décadas mais tarde, continua a celebrar-se sob um tema diferente a cada ano. O tema de 2021 é “Restauração de Ecossistemas”.

2021 marca o início da década da ONU para a restauração de ecossistemas, que terá lugar até 2030. Esta iniciativa, intimamente ligada ao cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda das Nações Unidas para 2030, pretende acelerar o cumprimento da meta de recuperação de 350 milhões de hectares de ecossistemas e solos degradados – o equivalente à dimensão da Índia. Se este objectivo for alcançado, pode evitar-se a emissão de até 26 mil milhões de toneladas de gases com efeito de estufa.

Querido, restaurei os ecossistemas

Então, o que podemos fazer para restaurar e renovar os ecossistemas degradados?

  • Ecossistemas costeiros

    A restauração de ecossistemas costeiros, de água doce ou oceanos passa muito pela limpeza dos mesmos, pela replantação da vegetação perdida à superfície e debaixo de água, e pela regulação do acesso aos recursos aquáticos.

Floresta Serra do Açor
  • Florestas e montanhas

    As florestas e as montanhas precisam de mais árvores e vegetação diversa autóctone que servem não só para proteger o solo mas também para salvaguardar cursos de água, protegendo ainda os ecossistemas de desastres naturais.

    Conheça o projecto “Floresta Serra do Açor”, uma iniciativa para preservar e valorizar a floresta devastada pelos incêndios florestais.

  • Campos e terras agrícolas

    Campos e terras agrícolas sofrem com a falta de biodiversidade, com o uso de pesticidas e fertilizantes tóxicos, e com erosão dos solos por exploração excessiva. A introdução de culturas mais diversificadas e o uso de fertilizantes e controlo de pragas naturais é uma forma de restaurar estes ecossistemas.

Turfeira (ecossistema aquático)
  • Turfeiras (ecossistemas aquáticos)

    As turfeiras são outro exemplo de ecossistemas vitais para o planeta. Embora representem apenas cerca de 3% da área terrestre, têm uma grande capacidade para armazenarem carbono. Estes ecossistemas aquáticos únicos, aos quais várias espécies raras chamam casa, estão a ser drenados e convertidos em áreas agrícolas, de mineração e de exploração de petróleo e gás.

  • Áreas urbanas

    Também as áreas urbanas precisam de mais espaços verdes, de mais microecossistemas (como jardins amigos dos polinizadores) e de mais espécies nativas plantadas em áreas públicas e privadas.

    Conheça o exemplo do município de Brent (Londres), que criou um corredor de flores para abelhas com cerca de 11 quilómetros de extensão.

Dez anos para reverter séculos de estragos: aceita o desafio?

Todas as pequenas acções contam. E uma acção pode ser, por exemplo, uma pequena mudança no estilo de vida. Se ainda não o fez, veja alguns exemplos de como pode proteger os ecossistemas do planeta, todos os dias. E porque não começar no Dia Mundial do Ambiente?

  1. Torne-se “verde”

    Escolha produtos alimentares e outros com certificações de sustentabilidade credíveis; compre a produtores locais de forma a reduzir os impactes ambientais associados; diga “NÃO” ao descartável e um grande “SIM” ao reutilizável. Já ouviu falar de compostagem? E do movimento desperdício zero?

  2. Compre de forma consciente

    Será que precisa mesmo de mais roupas e mais gadgets? Experimente doar o que já não usa a instituições ou lojas de segunda-mão, repare, reutilize, partilhe e peça emprestado. Não custa nada.

  3. Faça uma alimentação saudável

    Aumente o seu consumo de vegetais e produtos pouco processados e reduza o desperdício alimentar. Coma produtos sazonais, locais e biológicos – ainda que não pareça, estará a ajudar grandemente os ecossistemas do planeta, ao combater o uso de pesticidas e fertilizantes que degradam áreas agrícolas e ecossistemas aquáticos. Os seus hábitos alimentares podem mudar o planeta.

  4. Espalhe a palavra

    Isso mesmo, contagie os seus amigos e familiares com o “bichinho” da ecologia. Mostre-lhes recursos, ideias, actividades ou outros que os ajudem a perceber a urgência de adoptar um estilo de vida mais amigo do ambiente. Envolva os seus filhos em actividades de limpeza de matas ou praias, por exemplo, ou ajude os seus pais a perceber a importância de reciclar.

 

Siga estes passos e celebre o Dia Mundial do Ambiente todos os dias.